Mostrando postagens com marcador JEB. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JEB. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Cercado! (Faroeste), por JEB (José Eduardo Bertoncello)

Cercado! (Faroeste)
(Autor: JEB - José Eduardo Bertoncello)


I

Bang! Bang! - Tiros!
Ele acordou num sobressalto da cama da prostituta, uma de suas empregadas. A garrafa vazia que dormiu com os dois, como uma boneca de criança, caiu e quebrou. A luz era pouca - era luz de começo de manhã.
Não foram no quarto. Foi até a porta, cambaleando. Fez uma bagunça, tropeçou, derrubou coisas - ainda estava bêbado. Ouviu, procurou ouvir: nada. Nem no seu Saloon, lá embaixo. Então, até a janela, na ponta dos pés. Olhou sorrateiramente pela fenda, com medo de mexer na cortina, escondendo-se. Lá estavam, lá fora. Vindo pela rua. Muitos, talvez todos eles. A cidade inteira?
- Estrume!!! – praguejou. - Estrume!!! Estrume!!! Estrume!!!
Pegou só o cinto com as armas e as balas. Abandonou o quarto, sua funcionária dorminhoca e suas roupas. Desceu, saiu por uma janela, fugiu para os fundos.
Muitos sofriam e muitos morreram. Por causa dele. Não devia ter comprado wisky daquele traficante, não dele. E não devia tê-lo batizado. Não com pólvora, nem com alcatrão, nem com...
Os gritos chegavam de longe, junto com tiros para o alto. Estavam cheios de palavrões e maldições. No meio destes, algumas promessas:
- Nós vamos te dar pros peles-vermelhas!!! Eles também estão doentes!!! Vão usar seu couro safado para fazer tambores!!!
- Não!!! – E pôs a mão em seu escalpo, ainda no lugar.
Pegou o cavalo de outro, que não queria ser pego. Ele resistiu – não era o seu dono. No desespero, o fugitivo seminu sacou e encostou uma arma na cabeça do animal, e o ameaçou, cuspindo em sua cara. Situação ridícula, mas o cavalo pareceu entender e aquietou-se. Montou. A cela, sentida nua e crua, incomodava sua pele.
Para onde?
Olhou para o deserto. Aquele abismo encarou-o de volta. Era sua única saída. Ninguém pensaria que fugiu por ali... Que seria tolo ou louco o suficiente. Entrar no deserto sem água, sem comida... Sem roupas e sem chapéu também. Sem esperança. Nenhuma.
Foi.

--------- X ---------

II

Olhou várias vezes para trás. Procurava-os lá no horizonte distante sem querer encontrá-los.
Ninguém.
Era culpado e todos o odiavam, até a natureza. O sol chicoteou sua pele durante horas. O vento resolvera cuspir areia em seus olhos, pequenos punhais. E investiu contra ele, como que querendo segurá-lo, impedi-lo de continuar, queria que fosse pego. E o animal parecia sacolejar mais do que deveria, só para torturar suas nádegas. Maldito!
O Sol passeou lentamente por sobre ele. Quando estava indo embora, a meio caminho do chão, suas forças se foram de uma vez. Escorreram com o suor. Não tinha nem o suficiente para ficar ereto na sela. Despencou sobre o animal, que finalmente pode diminuir o ritmo da fuga para o de um cortejo fúnebre. Pensara, antes do desmaio, na sorte dele: sua suadeira o banhava e refrescava. Maldito!
De repente... Trovões! Rugidos! Tiros! Eles!
Acordou. Gritou e virou sobre a cela, num movimento brusco. Caiu do cavalo. Este se ergueu e relinchou, quase sádico e provocante, e o abandonou em disparada. Adeus...
- Não, desgraçado!!! Volte aqui!!! Volte aqui!!!
Atirou no traidor para segurá-lo. As duas armas, várias balas. Conseguiu – matou-o.
Mais tiros vindo caçá-lo lá de trás, um enxame de disparos. Correu. Saltou para trás de uma pequena duna.
Estava...
- Nãããooo!!!
Sim. Estava cercado.
- Aaaaahhhhh!!!
Vomitou todo o seu desespero nesse brado. Não tinha balas ou sorte para lidar com todos. Tinha o ódio de muitos.
O que lhe restava?
Colocou os canos sob o queixo. Sentiu-os por um momento. Fechou os olhos, tremeu, chorou, quase rezou.
Bang! – dois sons, ouvidos como um só. Duas mortes, para garantir sua fuga. Sua vida espirrou para cima e choveu sobre as areias como um pequeno chafariz. Seu cadáver ajoelhou e caiu para frente, prestando reverência à morte, que ele invocara.
Pouco depois, o vento começou a intensificar-se e a assobiar, como que pedindo silêncio. A areia foi revolvida; O sangue foi misturado ao solo; Os rastros sumiram. Mas nenhuma pegada nem marca de bala, além das do fugitivo, foram apagadas. Ninguém mais ouviu o seu grito ou o disparo final. Foi assombrado por fantasmas... delírios e miragens. Bebida, Sol e desespero – eis tudo.
Ao ser encontrado, seu esqueleto falaria aos vivos de uma história só testemunhada pelos carniceiros. Um conto dos abutres.
- Fim -

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A Horrível Conspiração Das Tenebrosas Plantas Com Olhos Malignas, por José Eduardo Bertoncello (Conto)

A Horrível Conspiração Das Tenebrosas Plantas Com Olhos Malignas
Autor: JEB (José Eduardo Bertoncello)



(Lembrem-se: Isto é uma história!)



Depois de terminar de escrever isto, vou me matar! Não aguento mais!
Philodendron bipinnatifidum, conhecido como guaimbê. Este é o nome do inimigo, essa coisa horrível na foto. A maldita planta telepata alienígena!
E só eu sei disso... Minha nossa! MINHA NOSSAAA!!!
Minha tragédia começou cedo, quando eu era muito criança... Na idade em que a ingenuidade nos dava felicidade. Foi numa tarde, depois de assistir a Jonny Quest, Space Ghost ou Scooby Doo... Disso, não lembro. Mas eu lembro muito bem do que aconteceu depois. E como eu gostaria de esquecer...!
Esconde-esconde. Maldita brincadeira! Nunca brinque de esconde-esconde, não deixem seus filhos brincarem! Querendo vencer, achei que havia encontrado um bom lugar e me enveredei entre as folhas grandes. Adentrei uma pequena floresta, que para uma criança parecia a própria África misteriosa. E lá eu vi. Aquela coisa. Ela era a própria floresta, que era um disfarce para si, para seu mal poder crescer.
Uma forma serpentina, tentacular, que saída do solo como morto-vivo, seu corpo cheio de olhos enormes esbugalhados, revirados para cima como os de um cadáver. Tentáculos saiam de algumas partes – Não eram raízes! Sobre o corpo-cabeça uma coroa verde, o símbolo de alguma autoridade terrível sobre o espaço sombreado, quase escuridão, que as folhas geravam. E no centro da coroa, uma flor-fruto estranha, fálica, branca como leite. Ela atraia insetos, que faziam o único barulho dentro dos domínios da planta.
Até que eu senti. Senti terrivelmente: Ela pensava, ela tinha vontade própria, e ela era maligna. Eu saí correndo de lá, tenho certeza de que momentos antes que ela decidisse abandonar seu disfarce e me pegar. Antes que os olhos se voltassem para mim, antes que as folhas me pegassem como garras verdes de muitos dedos. Antes que me forçasse a comer seu fruto corrupto e me envenenasse.
Tenho certeza de que os olhos iam se mexer. Tenho certeza de que escapei por um triz.
Nunca mais voltei até aquela área... Mas a planta não me deixou em paz. Passei a sonhar com ela. Pesadelos horríveis.
Eu fiquei marcado. As malditas plantas devem ser telepatas, devem manter uma rede... Cada vez que topava com uma delas, tinha aquela certeza carnal de minha infância, além da lógica e dos fatos: Todos as guaimbês sabiam de mim. E deve ser com essa maldita telepatia vegetal que me assombraram com todos os pesadelos que tive. Elas devem ter tentado me pegar mentalmente.
Uma vez, já mais velho, quando minha ansiedade me fez começar a frequentar hospitais, eu vi uma mulher entrando numa daquelas pequenas selvas demoníacas... O hospital mantinha um desses monstros bem cuidado em seu jardim! Inacreditável! E creio que, oh meu Deus, ela estava procurando seu filho e outras crianças! Crianças haviam desaparecido lá! Provavelmente, estiveram brincando de esconde-esconde! Como fazemos besteiras quando somos pequenos! A mulher entrou e eu não a vi sair. Minha mãe me levou embora pouco tempo depois dela entrar, então não posso ter certeza.
Mas eu TENHO certeza, essa certeza que surge nos ossos e nas entranhas: Eles foram pegos!
Pobres criancinhas...
Há cada vez mais guaimbês pela cidade. Agora que te alertei, você perceberá isso! Com a telepatia elas devem fazer as pessoas ignorá-los, mas agora você sabe, vai ver. Cada vez mais... E há pessoas que as mantém em vasos... Minha nossa, já vi um decorador falar de usá-las como plantas decorativas como se fosse a última moda!
Devem ser alienígenas! Só podem ser! Pense nisso: Conquistadores extraterrestres disfarçados entre nós!
Mas eu não vou ser pego! Cansei dos sonhos nos quais as plantas conseguem se mexer e me pegar. Cansei dessas vozes que elas fizeram brotar em mim (Foram elas, as malditas!), de todos esses remédios que tive de começar a tomar... Vou resolver isso hoje, com a fumaça de meu carro. Só vou cuidar de mandar isso para as pessoas. Em meu blog que quase ninguém lê, nas minhas páginas com poucos amigos das redes sociais e via e-mail.
Eu não sou louco! Vocês estão em perigo! As guaimbês vão pegá-los! As guaimbês estão entre nós!

quarta-feira, 30 de março de 2016

PARTICIONADO, por José Eduardo Bertoncello (Poema)

PARTICIONADO
Autor: José Eduardo Bertoncello




Descubro-me CaLeIdOsCóPiCo
O Narciso no lago é Medusa
Reflexo envolvido na teia de aranha
De um espelho quebrado - As lascas são meus eus



Minha criança interior
Eu mantenho numa caixinha de joias
E esta, dentro de um cofre-forte
Longe, escondido. Diversas vezes perdi o mapa e a senha.

Minha melhor impressão
Está num medalhão, bem à vista
Sempre lustrada
Mas acho que é um amuleto supersticioso que não funciona...

Minha eficácia é uma arma enferrujando
E eu não costumava passar óleo nela
Ainda assim, eu a mantenho sempre no coldre
E, sempre com ela, até agora sobrevivi

Minha disposição para a luta,
Minha agressividade primal,
Levo para passear numa coleira
Nesses momentos, as pessoas desviam de mim

Meu lado mau eu tentei afogar num lago.
Ele voltou. Ele sempre volta.
Ele está bem atrás de mim, sinto sua respiração. Não é um anjo da guarda.
Um tipo de fera que é chamada por Luas Cheias ou coisas menores ainda.